É curioso constatar que só comecei a ouvir os the promise ring a sério praí em março deste ano. Não é tão curioso nem sequer interessante constatar que sou um idiota. a verdade é que os the promise ring não serão uma banda tão desconhecida quanto os quicksand, ou outras de que aqui falarei, mas não me lembro propriamente da banda a passar na televisão, ou nas rádios ou até através de povo a cantarolar modinhas dos tipos (algo que seria perfeitamente exequível, tendo em conta a facilidade destes gajos para arranjarem refrões e guitarras cola-cola).
Vindos do solarengo e exuberantemente turístico milwaukee - que fica a norte desse baluarte paradísiaco de nome chicago, já relativamente perto do tórrido canadá, os the promise ring começaram inicialmente por ser um side-project do vocalista e guitarrista Davey vonbohlen que tinha como ofício principal labutar nos igualmente muito bons cap n'jazz - que nunca editaram um disco enquanto existiram, havendo apenas um duplo álbum com as suas gravações de estúdio editado já posteriormente, em 98 - e que lá está com o fim da sua primeira banda passou a ser ofício full-time.
Os the promise ring sempre foram conotados com o real aparecimento do emo. Enquanto uns se metiam a fervilhar com guitarradas cheias de força e poder, outros decidiam acalmá-las para depois desbravarem em substância trepidante (ou não), por alguns momentos e com uns quantos laivos de indie-rock à mistura. E com vozes mais calmas e tranquilas diga-se. Os the promise ring serão a facção mais pesada deste sector, sendo que os sunny day real estate, os the get up kids e mesmo os death cab for cutie - que obviamente já surgiram enquanto consequência destas bandas- serão os nomes mais evidentes assim à primeira vista. E é neste tumulto simpático que os the promise ring se decidem lançar o seu álbum de estreia.
Tem um título sugestivo antes de mais. Letras fantabulásticas como:
"To dream of a duel, speaking furious in Latin, the scald scar of water
Woke snug as a virgin quietly hummin"- de "scenes from france"
ou
"Your young English eyes on the highways,
climbs and dives, climbs and dives like its alive,
And the black in Indiana is leaving for Atlanta" - de every where in denver
E são mesmo fantabulásticas não me fodam: aliás praí o melhor dos the promise ring e que infelizmente foi esmorecendo com o passar dos discos são as letras meio nonsense que a banda possuía. Era mesmo imagem de marca: guitarras por vezes meio bipolares, voz estranha e por vezes meio impronunciável, melodias que colam e pois claro letras recheadas de peculiariedade. 30º degrees everywhere não é só a soma de todos estes elementos: é também um excelente disco de pequenas canções, a larga maioria delas não vai a mais que os três minutos e meio, que não se assimila de imediato. è melodicamente bastante rico, com diversas nuances que a produção do mesmo também enaltece e parece ser algo meio amorfo da primeira vez que se ouve. Uma espécie de melodias sem um encadeamento propriamente lógico e verosímil. Foi assim que ouvi pela primeira vez este tema fantástico por exemplo:
"A picture postcard" é dos temas que mais gosto deste disco, e consegue perfeitamente enquadrar tudo aquilo que fui referindo acerca dos the promise ring: começa lenta, baixa, lume brando e quês, para ir crescendo e acabar não apoteótica mas esfusiante digamos assim. è nestes termos que falo: temas curtos com algumas variantes musicais sempre deste registo de rock com laivos emo e indie ao mesmo tempo, letras meio subliminares e ficamos por isto.
De qualquer forma falta o essencial: "30º degrees everywhere" não parece nem à primeira nem à segunda nem à terceira, mas é um disco excepcional dentro do género e não só. Tem desvarios mas é coeso, é catchy mas é complexo, é curto mas tem um corolário enorme de intensidade. E aquilo que parece somente mais um disco de uma banda emo com algumas influências mais indie pelo meio torna-se um colosso musical, uma verdadeira caixinha de surpresas. Embora tenha tido algum hype quando foi lançado, neste momento julgo que justiça a este disco não foi feita, precisamente por causa da merda seca que o nome emo passou a querer dizer para a maioria da população. Mas não se enganem: 30º degrees everywhere é aquela babe que à primeira pode não parecer a melhor do universo, mas aos poucos vamos começando a micar e a ficar naquela do "como raio não reparei nela antes?". Clássico.
Antes de ter saído o segundo disco, os the promise ring editaram no mesmo ano "horse latitudes" um álbum de lados b com gravações antigas. tem o seu valor histórico e tem temas particularmente interessantes, como "saturday" ou "e.texas.ave." que surgiu de um split ep com os texas is the reason. é um disco que funciona bem sozinho com canções simples e imediatas que ficam novamente no ouvido.

Começa assim o tomo segundo da banda de millwaukee. Em 1997 "nothing feels good" foi a continuação relativamente lógica do primeiro disco. Sabendo da complicação que era fazer novamente algo semelhante a "30º degrees everywhere" a banda começou aqui a realizar uma "aligeirização" do seu som que culminou no seu último disco "wood/water". Neste sentido as canções já têm outro corpo, uma consistência mais sólida e sobretudo nota-se que estão mais trabalhadas, mais bem produzidas e com um certo maniqueísmo a contrastar com a ingenuidade da estreia.

O emo continua lá, como se pode averiguar nesta excelente "is this thing on?" um dos meus temas preferidos dos gajos. Contiuam as guitarras, mais catchy que nunca, a voz já se compreende melhor, e a letra "delaware are you aware the air supply" acho que continua subliminar o suficiente. O que mudou então? Basicamente o que referi acima. Este novo álbum está muito mais bem trabalhado, e perde de facto aquele impacto inicial. Mas a questão é: ele vale por si? Sem dúvida. "Nothing feels good" não sendo a devastação surpreendente do primeiro, tem um feeling muito seu e é uma constatação que os the promise ring estiveram mais preocupados com o disco a funcionar bem, do que propriamente com a recepção ao dito. è certo que duvido que temas como "why did we ever met" ou "a broken terror" provavelmente não teriam lugar em "30 degrees..." mas isso é irrelevante. Este é um disco de boas canções, mais leve, mais acessível, um registo mais limpo e passível de agradar a uma falange maior de público. E a banda continua completamente relevante.
Na segunda parte veremos os dois últimos discos e consequente fim dos promise ring. e igualmente os caminhos que os seus membros tomaram - pelo menos aqueles de que me lembrar e achar porreiraço referir.
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